Cineclubes
Uma
paixão compartilhada
21.10.2012
Apesar de pouco expressivas, já
têm público fiel e lutam contra adversidades para não desaparecer
Raras são as vezes em que a explicação do dicionário para alguma palavra
parece incompleta. Esse, porém, é o caso do vocábulo "cineclube",
definido como "entidade onde se congregam amadores de cinema para
estudar-lhe a técnica e a história".
A Vila das Artes é um dos locais onde cineclubistas se unem pelo cinema
FOTO: ALEX COSTA
Embora correta, a descrição não contempla outros aspectos da prática. Para além
do estudo da linguagem em si, o cineclube pode funcionar como ferramenta pedagógica
em outros campos do saber, ou, num sentido mais amplo, servir de plataforma
para suscitar reflexões sobre questões diversas - por exemplo, direitos
humanos, saúde, arte, ativismo, meio ambiente, entre outras. Para além da
construção de conhecimento, o cineclube passa ainda pela esfera da afetividade.
Trocando em miúdos, significa gente que gosta de cinema reunida para assistir a
filmes e conversar sobre eles - espécie de versão ampliada da roda de amigos em
frente à TV.
Em Fortaleza (assim como em todo o Brasil, de modo geral), onde o preço de um
ingresso para assistir a um filme no cinema pode chegar a R$ 18 (para 2D) e a
programação das salas privilegia títulos estrangeiros, o cineclube também
cumpre um papel democratizador - tanto no sentido do acesso à fruição quanto
das oportunidades de exibição.
Pelo menos é essa uma das premissas do curso Pontos de Corte, oferecido pela
Vila das Artes desde 2007, cujo objetivo é capacitar agentes culturais e
exibidores independentes - ou seja, pessoas e grupos formados para selecionar
filmes, planejar ações, cuidar de equipamentos de projeção, preparar
programações e intervenções artísticas na cidade, de acordo com os contextos de
cada local. Até sua última edição, no primeiro semestre deste ano, o Pontos de
Corte já formou mais de 300 pessoas e incentivou a criação de vários coletivos.
O conteúdo dos módulos inclui história e linguagem audiovisual, gestão e
planejamento de ações culturais, técnicas de projeção, exibições temáticas,
cineclubismo e antropologia cultural, entre outros assuntos.
Em um segundo momento, os alunos dividem-se em grupos para planejar e executar
eventos públicos voltados principalmente à projeção de conteúdos audiovisuais.
"No primeiro semestre de 2012 fizemos um mapeamento e identificamos 22
pontos de exibição derivados do Pontos de Cortes, que realizam ações em
diversos locais, como praças e escolas", explica o coordenador da Escola
Pública de Audiovisual da Vila das Artes, Lenildo Gomes.
"O curso foi criado para atender a uma demanda de descentralizar não
apenas o local de projeção (salas de cinema), mas a própria maneira de exibição
(tela convencional). Assim, ao longo desses cinco anos já tivemos, por exemplo,
projeções em dunas, na vela de uma jangada, em telas montadas na trave do gol
de um campo de futebol e até dentro da Lagoa de Messejana", conta Lenildo.
Além de ampliar o acesso do público, não raro, pela sua própria natureza não
comercial, os cineclubes acabam funcionando como janelas de circulação de
produções independentes, quase nunca contempladas pelo circuito tradicional de
exibição. "No Cineclube da Vila, por exemplo, muitas vezes priorizamos
filmes de realizadores cearenses, inclusive alunos e ex-alunos da escola de
audiovisual, porque é um tipo de produção hoje centralizada em festivais,
mostras especiais e, em menor escala, na TV. As salas de cinema não costumam
trabalhar com esses conteúdos, especialmente no caso dos
curtas-metragens", justifica Lenildo.
Assim, para o coordenador, a atividade acaba funcionando como uma ação
política, ao fugir do modelo estabelecido pelo mercado, em um modelo vantajoso
tanto para o público quanto para realizadores. Outra proposta frequentemente
adotada por organizadores de cineclubes é a de mostras temáticas, seja por
gênero, diretor, assunto, estética ou outros aspectos. "Muitas vezes
trabalhamos por tema no Cineclube da Vila, pelo fato de ele ter, entre outras
características, um caráter de formação do olhar, da sensibilidade estética.
Além disso, o recorte por tema também funciona como um atrativo, para as
pessoas interessadas no assunto", esclarece Lenildo.
Plural
A última turma do Pontos de Corte foi finalizada em abril deste ano, mas já
estão inclusas no planejamento da Vila novas edições do curso em 2013.
"Provavelmente faremos remodelações no conteúdo. Temos percebido uma
necessidade grande de diálogo da prática cineclubista com outras linguagens
artísticas ou mesmo com novas possibilidades dentro do próprio cinema",
adianta Lenildo. "Uma delas é o chamado ´live cinema´ (algo como cinema ao
vivo), em que as imagens são montadas em tempo real, na hora da exibição,
alterando a estrutura narrativa".
Um dos coletivos derivados do Pontos de Corte é o Provocações!, que realiza
quinzenalmente o Cine Desbunde, cineclube que combina exibição de filme a
outras atividades artísticas - como mostras de artes visuais, leituras
poéticas e outras. Para completar a proposta descontraída, os encontros
acontecem em um bar, o Buteco da Florzinha, no bairro do Benfica.
A iniciativa surgiu a partir de outras atividades dedicadas ao cinema,
idealizadas pelo ex-aluno do Pontos de Cortes, Antonio Viana. "Antes do
Cine Desbunde, tive a ideia de fazer o Cine Macumba, projeto voltado para a
temática da cultura e da manifestações afro-brasileiras, com atividades
envolvendo música, culinária e exibição de filme", recorda o produtor.
"Chamei algumas pessoas e realizamos três edições do Cine Macumba; uma na
Associação Cultural Solidariedade e Arte - Solar e duas na Vila das
Artes", complementa Viana. Já o Cine Desbunde é dedicado a filmes
brasileiros, dentro da temática da juventude e dos movimentos culturais
nacionais nos anos 1960 e 1970. "Trata-se de uma proposta experimental em
um formato mais simples, mais básico. Improvisamos uma tela na parede do bar.
Temos tido uma média de 20 espectadores, mas isso varia por conta da
rotatividade propiciada pelo ambiente", explica Viana.
Antes das exibições, os organizadores costumam tocar algumas músicas; depois,
sempre há uma conversa entre público e artistas locais convidados,
"normalmente mais desconhecidos pelo público e não contemplados pelas
políticas culturais públicas", esclarece o produtor.
Para Viana, a prática cineclubista é importante especialmente para a formação
de plateia. "No caso do Cine Desbunde, ficamos surpresos com a falta de
conhecimento da nossa juventude sobre a cultura brasileira musical de antes dos
anos 1990, inclusive em um bairro onde isso não deveria acontecer, por se
tratar de um polo universitário", critica o produtor. Por conta disso, uma
das ideias dos realizadores do Cine Desbunde é formar uma biblioteca digital
com os filmes e documentários exibidos no cineclube, "para ampliar o
acesso às produções", complementa.
REPÓRTER
ADRIANA
MARTINS