08/08/2005Barba feita
Por Marcos Diego Nogueira
Desde “O Bloco do Eu Sozinho” é sempre a mesma coisa. Ter um disco novo do quarteto carioca Los Hermanos em mãos é garantia de trocar o sentimento de expectativa por surpreendentes novidades rítmicas e poéticas, características da vontade de seus integrantes de reinventar a fórmula da banda e cometer obras essencialmente atemporais. Com “4”, o tal novo disco, não tem sido diferente. As dúvidas sobre a qualidade do material se foram na primeira degustação, principalmente referentes à tão comentada quase-total ausência dos metais, característica marcante nos discos anteriores e que agora se faz econômica e aparece – sem timidez – em momentos escolhidos a dedo.
Seus compositores mostram novos rumos em detalhes muito próprios. Marcelo Camelo, responsável por sete das doze músicas do álbum, se recolhe internamente e prima pelos arranjos mais acústicos e as letras mais emblemáticas, poéticas. O conceito “além do que se vê” empregado nas letras do anterior “Ventura” dá lugar mais uma vez à inevitabilidade de todos os carnavais. Seja na mais pura representação do desespero, “E agora o amanhã, cadê?”; na vivência de fatos passageiros, “Eu não, prefiro assim com você, juntinho, sem caber de imaginar até o fim raiar”; no imediatismo exacerbado, “Dá-me luz ó deus do tempo, nesse momento menor (...) a gente quer ver o horizonte distante aprumar”; ou no conformismo, “só levo a saudade, morena, é tudo que vale a pena”.
Já Rodrigo Amarante, responsável pelo single inicial de divulgação do álbum, traz os momentos mais alegres do álbum, como em “Paquetá”, “O vento” e “Condicional”, essa última a mais agitada de “4”. Interessante é perceber a porção Camelo que floresce por trás do estilo de Amarante. O fã confesso de Marcelo brinca com propriedade sobre a figura humana em suas letras, sendo aqui muito mais explícito do que o outro. A semelhança de estilos fica ainda mais acirrada com os jogos de palavras empregados nas novas composições: como em “Condicional”, “Quis nunca te perder/ Tanto que demais / Via em tudo céu / Fiz de tudo cais / Dei-te pra ancorar/ Doces deletérios”; ou em “Primeiro andar”, “não faz disso esse drama essa dor/ é que a sorte é preciso tirar pra ter”. Os versos de “Paquetá” deixam isso mais evidente em momentos como “é que eu já sei de cor qual o quê dos quais e poréns dos afins, pense bem ou não pense assim” ou “Que desfeita, intriga, o ó/ Um capricho essa rixa e mal/ Do imbróglio que quiproquó/ e disso bem fez-se esse nó”.
1 – “Dois barcos” – Clima chuvoso e intenso. Piano e baixo se integram em um movimento melancólico, lembrando um pouco Hurtmold. Entra o vocal calmo e que lembra os idos tempos de Ivan Lins (Ivan Lins?)* e “Santa Chuva”, o som que ficou famoso com a Maria Rita. Os arranjos de fagote e metais – escritos pelo próprio Camelo e por Edu Morelenbaum – colocam um pouco mais de sal na água das lágrimas de quem ouve. O clima denso funciona para aclimatar o ouvinte para o que está por vir. Influências de Caymmi nas letras. “Doce o mar perdeu no meu cantar”.
2 – “Primeiro andar” – Levadinha esperta um pouco diferente das últimas incursões compositoras de Rodrigo Amarante. Olhar o mundo para olhar a si próprio é mais ou menos a tônica da letra. São três guitarras – feitas por Amarante, Kassin e Gabriel Bubu – brincando em contra-melodias e fazendo lembrar bastante os grupos norte-americanos de música emo, principalmente Sunny Day Real Estate e Death Cab For Cutie. Presta atenção no riff final...
3 – “Fez-se mar” – Um Camelinho e um violão! Talvez o maior sambinha feito por Marcelo Camelo. Estilo Paulinho da Viola mas com características totalmente próprias. Saca só o refrãozinho: “Clareira no tempo, Cadeia das horas, Eu meço no vento, O passo de agora”. O ruidoso solo de guitarra feito por Fernando Catatau é o tempero: bem climático, percorre toda a espinha dorsal por cima de um violão de suingue arrastado.
4 – “Paquetá” – apesar do título Vinícius de Moraes e a tendência ao samba, “Paquetá” tem influências de música latina, principalmente na percussão e no piano. Caberia muito bem no projeto paralelo de Amarante, a Orquestra Imperial. Em jogos inteligentes de palavras e rimas, ele divaga sobre os dissabores da perda, desculpa-se das burradas e declara à sua amada: “sem você sou pá-furada”.
5 – “Os pássaros” – Com um início que lembra Radiohead e a levada vocal característica de Rodrigo Amarante, retrata o coração partido de um eu-lírico (eu-lírico?)* que mostra insegurança e confusão em relação à vida. O ritmo arrastado – bem característico de quem passa pela fase da perda (fase da perda?)* – encaixa no zigue-zague da letra. O sintetizador e o harmônio elétrico de Bruno Medina estão tinindo.
6 – “Morena” – Esse início não engana: Camelo andou ouvindo “Anos dourados”, parceria de Tom Jobim e Chico Buarque. O riff e a levada são bem parecidos. A música é poesia pura acompanhada por instrumentos. “É, morena, tá tudo bem. Sereno é quem tem paz de estar em par com deus. Pode rir agora que o fio da maldade se enrola”. É a canção mais próxima do ska, ritmo constantemente flertado pelos Hermanos em um passado nada distante. “Anos dourados" e ska?
7 – “O vento” – É o primeiro single do álbum. Começa após um silêncio proposital de 12 segundos. Talvez para quebrar o clima mais melancólico das seis primeiras faixas, ou dividir o disco – que deve ter edição em vinil – em dois lados. É a primeira vez que os Hermanos promovem um álbum com um som do Amarante. Enfim uma levada alegre, em clima dos mexicanos do Café Tacuba e com pegada pop. Guitarra com levada rápida e teclados espertos. Tem cara de prédio na praia do Rio de Janeiro. Daqueles que não têm varanda mas compensam com um puta janelão.
8 – “Horizonte distante” – Finalmente uma banda nacional consegue passar para o Brasil o que bandas como Franz Ferdinand e Strokes fazem nos EUA. Saca só essa levada de guitarra! Mas tem aquela porção Los Hermanos, né? Os arranjos arrepiam. Esse papo de “horizonte distante” soa meio Renato Russo pra você? Não se deixa enganar. O flerte com o progressivo é evidente. Se em “Ventura” os refrões eram escassos, em “4” eles voltam a aparecer. “A gente quer ver o horizonte distante” é prova disso. Algo soa como um solo de banjo, mas no disco não tem essa informação então deve ser uma guitarra maluca. Detalhes que fazem a diferença, e os barbudos sabem disso.
9 – “Condicional” – Essa tem cara de “Ventura”. Pianinho com riff esperto, guitarra e teclados mais próximos do Weezer e Amarante enrolado novamente em lamúrias de amor. É a “Canção do amor demais” dos barbados. É o fim da parte “mais animada”, iniciada na faixa sete.
10 – “Sapato novo” – Violão dedilhado, baixo, bateria, sintetizador e...Vibrafone! Jota Moraes é o convidado dessa faixa. Silenciosa, triste e direta: “levo assim, calado, de lado do que sonhei um dia como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar”. Quem diz que Marcelo Camelo é um seguidor de Chico Buarque acerta pela semelhança na destreza em interpretar sentimentos com uma linguagem comum e ao mesmo tempo sofisticada e profunda. Erra quando não percebe as propriedades únicas conservadas na poesia de ambos. Camelo é Camelo e “Sapato Novo”, uma canção de amor singelo com uma letra isenta de rimas, é grande prova disso.
11 – “Pois é” – O que esperar de uma música que começa com a seguinte constatação: “pois é, não deu”? Com muito lirismo Marcelo Camelo prega o Carpe Diem em um arranjo simples e belo. “Avisa que é de se entregar o viver (...) Deixa o amanhã e a gente sorri”. Soa como um aviso ao ouvinte que a essa altura está hipnotizado e com o coração na mão.
12 – “É de lágrima” – A última do disco e a que encerra a trilogia corta-pulso que se inicia em “Sapato novo”. A curiosidade fica por conta da ausência do Amarante na gravação desse som, algo meio inexplicável... É da banda, né? Para aqueles que sempre analisam o som dos Hermanos a partir da proximidade com a MPB, uma surpresa: “é de lágrima” esquece o tupiniquim e coloca os dois pés na música inglesa. E aí declara Marcelo que “É de lágrima que faço o mar pra navegar” antes do estouro nos arranjos. Um “gran finale” de um excelente álbum.
*(notas de estranhamento da www.radiolaurbana.com.br, hehehe)
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